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24 de Janeiro de 2007 às 21:50

Mídia brasileira copia notícias de agências internacionais, diz estudo


Julieta Thomé
Fonte: Agência USP de Notícias

Apesar de a internet facilitar a divulgação de notícias sobre os diferentes países, o fluxo da informação ainda é o mesmo dos anos 80: ditado pelas grandes agências internacionais. “A expansão da tecnologia não se refletiu numa maior pluralidade de assuntos e coberturas, como poderíamos imaginar”, diz a jornalista Maria José Baldessar.

As agências de informação brasileiras reproduzem as notícias das agências internacionais, “às vezes resumem ou juntam informações de duas delas num mesmo texto, mas nada muito além disso”, conta Maria José. Ela defendeu, recentemente, uma tese de doutorado sobre o tema na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Notícia de mãe que matou os dois filhos
O estudo concluiu que são os correspondentes das agências internacionais que determinam o que é importante ser noticiado sobre seu país para o mundo. A jornalista cita como exemplo o caso de uma mãe austríaca que matou os dois filhos em março do ano passado e o caso foi publicado em todos os jornais pesquisados. “O índice de assassinatos é muito pequeno na Áustria, por isso o correspondente deve ter se chocado com o fato. Mas porque noticiá-lo no Brasil? Não é um crime tão inédito e não vai influenciar de nenhuma forma nossa vida aqui”, questiona.

A pesquisadora destaca a necessidade de alterar os procedimentos de divulgação das notícias. “As agências deveriam ser usadas como fonte para sugestões de pautas a serem aprofundadas, não como matérias prontas para serem reproduzidas”, avalia a jornalista. Ela diz que, apesar de trazer diversas possibilidades, a internet, sozinha, sem uma política de circulação da informação, tem pouca capacidade para alterar esse fluxo de informações.

TVs árabes
Um exemplo da importância de se diversificar as notícias entre as agências internacionais é o da TV árabe Al Jazira. A rede hoje tem um site de notícias em inglês e pretende difundir suas informações não mais apenas para o mundo árabe. “A partir da Guerra do Golfo (1991), a CNN (rede de TV norte-americana) começou a transmitir notícias sobre o Oriente Médio com grande freqüência. Foi quando redes de TV como a Al Jazira e a Al-Alarabya se organizaram para dar a visão delas sobre a guerra e o mundo árabe", diz Maria José. Ela lembra que isso é importante por retratar os árabes do modo como eles se vêem, e não com a visão preconceituosa de muitos jornais ocidentais, que dão tratamento a todos como terroristas. “É esse tipo de mecanismo que pode mudar o sistema de divulgação da informação”, acredita.

Jornais brasileiros reproduzem notícias
A pesquisadora analisou as notícias divulgadas em português pela Reuters (Agência de Notícias da Inglaterra) e pela EFE (espanhola) durante três meses não consecutivos, entre 2004 e 2006. Ela também acompanhou durante duas semanas as informações divulgadas por essas agências internacionais, cerca de duas mil por dia, e as matérias publicadas, perto de 40 diariamente, na Agência Estado e nas agências de O Globo Online e do Jornal do Brasil, que não só publicam, mas distribuem notícias.

Segundo Maria José, a maior parte das informações internacionais vêm dessas duas agências. Os jornais brasileiros apenas reproduzem essas notícias, “não chegam, por exemplo, a entrar em sites especializados sobre o assunto ou região para checar ou complementar alguma informação — o que não seria caro nem muito trabalhoso”, diz.

Além disso, países com pouca importância econômica no mercado mundial têm espaço no noticiário apenas quando ocorrem tragédias ou eventos naturais. Um dos países que vem tendo grande destaque nos noticiários, por exemplo, é a China, por ser um grande mercado econômico e ter grandes corporações investindo lá.

Já outros países, como os da própria América Latina, são noticiados apenas em matérias sobre temas como terrorismo. “Nos quinze dias de comparação, só três matérias tratavam de Portugal, por exemplo — que pela ligação histórica com o Brasil poderia causar um maior interesse. Uma sobre os incêndios que acometeram a região e outras duas sobre prostituição e imigração ilegal”, ressalta.


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