"Nem a neve, nem a chuva, nem o calor e nem a escuridão da noite impedem esses mensageiros de cumprir com a sua obrigação com a máxima velocidade", diz a inscrição esculpida na fachada do edifício James A. Farley, sede dos Correios em Nova York. Mas, quase um século após a frase ter sido escrita, a empresa está ameaçada por uma grave crise financeira.
O USPS (sigla em inglês para Serviço Postal dos Estados Unidos) anunciou que a queda mais rápida que a esperada nos negócios pode levá-lo até o final de setembro à insolvência técnica (fluxo de caixa insuficiente para honrar compromissos). Além disso, a empresa pode ficar incapaz de pagar as suas contas até meados de 2012.
Se os correios não cortarem milhares de empregos, adiarem gastos e reduzirem seus serviços, executivos da empresa acreditam que os prejuízos devem se acelerar. Isso aumenta a chance de que os contribuintes americanos possam ser forçados a socorrer o segundo maior empregador civil do país.
O USPS, como outros grupos postais no mundo, entrou em declínio há muitos anos, abatido pela inexorável substituição das cartas de papel pelos equivalentes eletrônicos e pela recessão econômica.
Uma lei de 2006 exacerbou o problema, ao forçar o USPS a reservar antecipadamente verba para financiar benefícios a seus funcionários aposentados, totalizando US$ 59 bilhões em dez anos - uma parcela de US$ 5,5 bilhões vence em setembro. A norma, além disso, limitou aumentos de tarifa ao índice de preços ao consumidor.
Desde 2007, o volume entregue pelo correio caiu 20%, e a correspondência prioritária teve queda mais acentuada que o esperado nos últimos meses. As perdas da USPS já somam US$ 20 bilhões, com uma estimativa de que cheguem a US$ 150 bilhões até 2020.
Tad DeHaven, analista do Cato Institute, argumenta que a estrutura peculiar do serviço como uma entidade federal autônoma deixou os correios com as limitações de uma agência governamental e as pressões competitivas de uma empresa privada, mas sem as vantagens de nenhuma das duas.
Segundo ele, o USPS não recebe subsídios federais e se apoia em receitas em queda, além de uma linha de crédito do Tesouro para cobrir suas despesas. Enquanto isso, o requerimento de serviço universal e os contratos com sindicatos de servidores que incluem estabilidade dos funcionários limitam a sua capacidade de cortar gastos.
Nos últimos quatro anos, o USPS cortou US$ 12 bilhões em gastos, eliminou 110 mil empregos, pediu permissão ao Congresso para acabar com a entrega postal de sábado e criou novas linhas de produtos. Mas analistas temem que essa economia possa ter sido anulada.
Neste mês, o USPS anunciou uma estratégia radical para voltar ao lucro. Nos próximos cinco anos, planeja cortar 220 mil de seus 574 mil funcionários (sendo 120 mil por meio de demissões). O plano prevê ainda fechar 300 centros de processamento e 3.700 agências.
Em outro documento, o USPS propôs tomar o controle direto sobre os planos de pensão e de saúde, assumindo pagamentos de 480 mil aposentados e dos trabalhadores na ativa. A manobra, porém, faria a empresa assumir passivos da ordem de US$ 270,5 bilhões e US$ 42,5 bilhões, respectivamente.
As propostas foram mal recebidas pelos sindicatos. Em uma dura mensagem aos trabalhadores, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Postais, Cliff Guffey, disse que "esmagar os trabalhadores postais e cortar o serviço não resolverá a crise financeira do serviço postal".
"A crise econômica do USPS é o resultado de [legislação] que requer que o serviço postal pré-financie os benefícios de saúde de futuros aposentados - um fardo que nenhuma outra agência governamental ou companhia privada carrega", disse ele. "O Congresso criou essa medida e o Congresso pode consertá-la."
Fonte: Valor Econômico
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